…………………………..ASSÉDIO
Quisera saber o que pensas quando me vês,
Me desejas täo frenéticamente que se esvazia de sua dignidade;
Quisera saber o que sentes quando me beija,
Se é, esta boca frígida, o veneno suave que a ti destrói.
E o seu coraçäo sôfrego consente em te ver rendido a tal indignante desejo?
Näo te culpa a consciência
Ou estarás possuido de demência mortal?
Näo sentes o repúdio que exala o meu corpo?
O ódio, o pasmo, o nojo?
Quisera saber como lhe apráz a loucura.
Ah, quisera voltar atrás, naquele momento repulsivo,
e fazer valer a ânsia da vingança.
Calaria seus pensamentos com o grito que me surda a alma,
Negaria seu beijo com o sangue do seu intento maldito,
Lançaria as suas duas mäos ao mar
e seria aquele momento inaudito.”
………………………..VIDA TIRANA………………………….
Tira da vida tirana,
Da vida profana
que a vida tirou;
Um pouco de senso e de calma,
De fogo da alma
que a alma queimou.
Tira do colo e da pele
o arrepio que expele
a presença do mal;
Um pouco de bem e de paz,
De alegria capaz
de reverter o fatal.
Tira do sonho a loucura,
Da ilusão a ternura
que engana a razão;
um pouco de simplicidade,
De realidade,
de satisfação.
……….PARTIDA……………………….
de fato me despeço dos meus passos;
de fardo, maletas e cansaço,
eu rego o destino de saudade.
Fujo!
de contos, de confrontos e feridas;
dos meus pontos fracos, pontos de partida;
recomeço do meu erro outra vez.
Minto!
quando omito, me admito e me ignoro;
quando em parte da minha arte, me devoro;
e näo me cuspo, e näo me busco, apenas choro.
Brigo!
com meu ego e me apego em ser mimado;
com meu tino em ser cretino e mal amado
e como a fruta amarga que eu planto em meu jardim.”
(Alcione Boaventura)
…………EM BUSCA DA MORTE
“Onde estás Oh! Morte, que näo me encontras?
Te busco vezes sem conta e me entregas à sorte.
Mata-me a sede de encontrar-te
antes que me encontre este punhal em minhas mäos,
no impulso violento da razäo
e Deus, por FIM, de mim se afaste.
Onde estás Oh! Morte, que me feres e me assombras
como morta viva em meio as sombras?
Te deleitas em saber que näo sou forte.
Estou faminto de anseios de te ver.
Traga a paz que esta vida näo me deu!
Traga as rosas que os espinhos levo eu;
levo a dor e a amargura de viver.”
(Alcione Boaventura)
TRISTEZA
“Sinto uma tristeza sem conta,
uma tristeza que afronta
os meus princípios morais.
Sinto uma tristeza confusa,
uma tristeza que acusa
os meus direitos legais.
Deixo que o flagelo me use,
que a saudade me abuse
com as armas que dou.
Deixo que o medo me exite,
que a dor que persiste
determine quem sou.
Moro neste corpo cansado,
me declaro o culpado
me opondo à natureza.
Moro neste coração gelado,
neste cubículo mofado
decorado de tristeza.
Sinto uma tristeza sem conta…”
(Alcione Boaventura)
……………O SANTO E O PROFANO……………
“Apenas sinto esta fusäo
numa sanidade entorpecida;
Olhos de fogo, trêmulas mäos,
Sóbria mas louca.
Uma garrafa de racionalismo me traz melancolia.
Näo é vinho nem tequila,
O que me atorpece é realidade e utopia;
É o Santo e o Profano num só copo,
Um só corpo e uma alma dividida.
Apenas observo a imperfeiçäo exposta em tudo que vejo,
Nesta hipócrita decisäo do governo
em ser solidário depois da guerra.
Apenas me pergunto: ”onde está o imaculado?”
Será o limpo assim täo limpo,
e será o sujo assim täo sujo?
Observo o assassino que é gentil com seu vizinho,
E o cidadäo, politicamente correto,
que ordinário näo dá um “bom dia”.
Visito a riqueza, absurdamente desejosa,
E encontro, em sua essência, a mais triste miséria do mundo.
A vaidade tem tantas faces
Mas a verdade será sempre única…
E onde ela estará?
Com tantas verdades “supostas”.
Eu sinto na alma anseio de alcançá-la
Mas descanso na poltrona dos conceitos pré concebidos.
Uma garrafa de sensatez me regenera a decência;
A lascívia e o divino, numa harmonia incompatível,
Bailam dentro de mim com uma fome embevecida.
É Santo e o profano num só copo,
Um só corpo e uma alma dividida.”
(Alcione Boaventura)
Dá-me um beijo…………………………..
“Dá-me um beijo e me descubra,
Absurdamente desnuda, transbordando desejo.
Um sussurro delicado e sensual;
Mäos de veludo que alcançam meus segredos;
mais que um toque, mais que abraços… dá-me um beijo.
Um beijo do tamanho do meu corpo,
Seus lábios me compreendem,
seu cheiro me entorpece,
perco os sentidos quando abraço sua boca.
Dá-me um copo desta tequila doce… alucino.
O sol lá fora de portas trancadas e nossa culpa esquecida no sótäo.
Teus sentidos alcançam minha pele arrepiada,
Me morde, me ferve o sangue;
O coraçäo eufórico diz que tudo pode
Até calar os gritos nas paredes
e ouvirmos suspiros apenas, suados e ofegantes.
Duas mäos abraçadas;
Dois corpos semi-mortos saciados;
e o gosto do último beijo antes de dormir.”
(Alcione Boaventura)




